Quase 4,8 milhões de pessoas vão sentar na mesma cadeira em dois domingos consecutivos. O Inep confirmou 4.811.338 inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio de 2025, número divulgado em julho e que representa alta de 11,22% sobre 2024. O problema não está na vontade de fazer a prova. Está no que acontece, ou deixa de acontecer, nos meses anteriores: professores e coordenadores pedagógicos ouvidos em diferentes redes repetem o mesmo diagnóstico, o de que muita gente estuda conteúdo e quase não treina prova.
A aritmética que quase ninguém faz antes de agosto
A prova tem 180 questões objetivas, segundo o Inep, distribuídas em 90 itens no primeiro domingo e 90 no segundo, com 45 questões para cada uma das quatro áreas de conhecimento. Essa estrutura vale desde a reformulação de 2009. Some a redação ao primeiro dia e o candidato encara duas maratonas de mais de quatro horas em intervalo de uma semana.
Levantamos o raciocínio que coordenadores de cursinhos públicos costumam apresentar na primeira aula de abril: quem resolve dez questões por dia, cinco dias por semana, chega a pouco mais de 200 itens por mês. Em seis meses, algo perto de 1.200 questões. Parece bastante. Não é, quando se considera que o estudante precisa cobrir quatro áreas, redação e ainda repetir temas que errou.
O erro mais comum é tratar simulado como evento raro, marcado uma ou duas vezes no ano, em vez de rotina semanal. Quem faz isso descobre o próprio ritmo de leitura tarde demais.
Por que resistência física entrou no cardápio de estudo
Professores de redação em escolas estaduais do Paraná e do Ceará relatam um padrão: alunos que acertam bem nas duas primeiras horas despencam na terceira. Não é falta de conteúdo. É falta de treino em condição real, com cronômetro, sem celular, sem levantar.
Um caso concreto ajuda a entender o tamanho do público afetado. Em 2024, segundo o Inep, o exame teve 4.325.960 inscritos, dos quais 1,6 milhão de concluintes do ensino médio. Esse grupo chega ao exame com a rotina escolar cheia, aulas até novembro, trabalhos de conclusão, e raramente encontra espaço para bloquear quatro horas seguidas de simulação.
Ainda sobre 2024, o mesmo instituto registrou que 63,6% dos inscritos eram isentos da taxa e 36,4% pagaram. A isenção derruba a barreira de entrada. Não derruba a barreira do tempo de estudo, que depende de jornada de trabalho, transporte e condições de moradia.
Quantas questões existem de verdade para treinar
Aqui começa a confusão que atrapalha o planejamento. Comparamos dois levantamentos independentes feitos a partir de provas públicas e os números não batem. Um deles, da Descomplica, compila 4.462 questões das provas de 2009 a 2025, com gabarito oficial. Outro, do projeto Memorize Vestibular, reúne 37 provas e 6.840 questões do mesmo período.
A diferença de quase 2.400 itens não é erro de contagem. Decorre de critérios distintos de inclusão: provas regulares apenas, ou também as aplicações para pessoas privadas de liberdade (PPL) e as reaplicações por problemas logísticos. Quem monta cronograma sem saber disso superestima ou subestima o próprio volume de treino.
Na prática, o candidato que decide usar um Banco de questões ENEM precisa checar quais edições estão incluídas, se há gabarito oficial e se as reaplicações aparecem separadas das provas regulares. Material sem essa identificação mistura itens de dificuldade e estilo diferentes, e o estudante perde a referência de progresso.
- Verificar o intervalo de anos coberto, já que provas anteriores a 2009 seguem outra lógica de aplicação.
- Conferir se o gabarito é o oficial do Inep ou resposta elaborada por terceiros.
- Observar se o acervo separa provas regulares, PPL e reaplicações.
- Checar se há filtro por área de conhecimento, porque o treino precisa respeitar os 45 itens por área.
A dificuldade oficial não é opinião de professor
Existe um parâmetro público e pouco usado pelos estudantes. O Inep calcula a dificuldade de cada item pela Teoria de Resposta ao Item (TRI) e publica esse valor nos microdados do exame. A escala é direta: questão fácil abaixo de 600 pontos, média entre 600 e 699 e difícil a partir de 700.
O que poucos sabem é que esse detalhe muda a estratégia. Como a TRI penaliza o padrão de acerto incoerente, quem erra itens fáceis e acerta difíceis recebe nota menor do que o número bruto de acertos sugeriria. Treinar sem olhar a classificação oficial produz a ilusão de domínio.
Há um limite nesse dado, e ele precisa ser dito. Os microdados saem com defasagem de meses após a aplicação, o que significa que a dificuldade calculada da edição mais recente nem sempre está disponível quando o estudante começa a revisar. Para as provas de 2009 a 2023, porém, o material está consolidado.
O mapa desigual de quem chega ao treino
A distribuição das inscrições de 2025 escancara distâncias regionais. São Paulo lidera com 751.648 inscritos, seguido por Minas Gerais, com 464.994, e Bahia, com 428.019, conforme dados do Inep. No outro extremo, Roraima registrou 14.162 e o Acre, 28.962.
Número absoluto reflete população, claro. Mas reflete também densidade de oferta: cursinhos presenciais, bibliotecas com horário estendido, conexão estável para resolver prova on-line. Em Boa Vista ou Cruzeiro do Sul, a conta de quantos simulados coletivos um aluno consegue fazer no ano é bem diferente da conta de um estudante da zona leste de São Paulo, que encontra cursinho comunitário a duas estações de metrô.
A pandemia deixou marca nesse mapa. Depois da queda nas edições de 2021 e 2022, o interesse só voltou a crescer em 2023, com 3.933.970 registros, segundo o Inep, em trajetória de alta mantida até agora. Mesmo assim, o país continua distante do recorde histórico de 8.722.290 inscritos em 2014, dado do Inep citado pela CNN Brasil. Quase metade do público de uma década atrás não voltou.
Inscrição automática aumentou o acesso, não o preparo
A novidade administrativa de 2025 foi a inscrição pré-preenchida para concluintes da rede pública. Foram 1.915.634 estudantes nessa condição e 1.390.815 confirmaram a inscrição, ou 72,6% do total, de acordo com o Inep. Pouco mais de 500 mil não concluíram o processo.
Outra retomada relevante: 98.558 participantes vão usar o exame para certificação de conclusão do ensino médio e declaração parcial de proficiência. São adultos que largaram a escola e voltam pela porta do exame, muitas vezes sem contato recente com o formato de 90 questões em um único turno.
Ao contrário do que parece, facilitar a inscrição não resolve o treino. Coloca mais gente na sala. O que acontece entre a confirmação em julho e a prova em novembro continua dependendo de rotina individual, acesso a material e apoio da escola.
Quanto custa treinar, e o que isso não é
Plataformas privadas ampliaram a venda de acervos próprios. A ferramenta da Descomplica, por exemplo, anuncia 10 mil questões, sendo 2.000 de provas anteriores e 8.000 inéditas, com simulado no formato oficial e nota estimada acompanhada do intervalo até a nota de corte. É um mercado em expansão, com preços que variam por plano e período.
Gasto com preparação não é aplicação financeira e não deve ser tratado como tal. Este texto não é recomendação de investimento. Mensalidades de plataformas e cursinhos sofrem reajuste e variação de mercado, e nenhum serviço pode prometer nota garantida, assim como nenhum produto financeiro pode prometer rendimento, prática vedada pelas regras da CVM e fiscalizada no sistema financeiro pelo Banco Central.
No campo tributário, despesas com instrução têm limite anual de dedução no Imposto de Renda definido pela Receita Federal, e cursos preparatórios costumam ficar fora das despesas dedutíveis. Famílias que planejam reservar dinheiro para a preparação dos filhos fazem bem em conversar com um profissional certificado antes de comprometer orçamento com planos longos.
O que dá para fazer a partir de hoje
A verdade é que treino de prova se constrói com repetição monótona, não com descoberta de atalho. Quem tem três ou quatro meses pela frente consegue montar uma rotina simples, desde que respeite o formato real do exame.
- Separar um domingo por mês para simulado completo de 90 questões, com o mesmo horário de início da aplicação oficial.
- Resolver blocos de 45 itens por área nos dias úteis, replicando a divisão usada pelo Inep.
- Consultar os microdados para identificar a faixa de dificuldade das questões erradas e priorizar as que ficam abaixo de 600 pontos.
- Registrar o tempo gasto por bloco, porque o gargalo costuma ser leitura, não conteúdo.
- Guardar as provas de reaplicação e PPL para o último mês, quando o estudante já conhece o padrão das edições regulares.
Quem perdeu o prazo de confirmação em 2025 pode usar o acervo público das edições anteriores para chegar melhor preparado à próxima aplicação. O material está disponível no portal do Inep, sem custo, com gabaritos e microdados. Falta, na maioria dos casos, calendário.



